segunda-feira, 9 de agosto de 2010

188 - FELIZ CUMPLEAÑOS MANUEL.

D. Manuel Carrasco Álvarez, meu bom amigo de Sanlúcar la Mayor, membro do Club Ciclista de Espartinas, que nos deu a honra da sua presença no Portimão - Fóia e no Passeio da Juventude Desportiva das Fontaínhas, cumpre hoje 75 anos.
É com o maior prazer que desde este blogue lhe endereço os meus sinceros parabéns, pela grande amizade, mas também por ser um homem com um coração do tamanho do Mundo, e com um carácter, uma força de viver, uma bonomia invulgares.
Aos 75 anos pedala como poucos, sobe montanhas sem qualquer dificuldade, puxa por mim quando estou estafado, e no final, depois de ter ficado em primeiro no seu escalão, ainda tem a bondade de prescindir do troféu que conquistou com o seu esforço, para mo oferecer como prova de amizade.
Não existem fronteiras, não existem diferenças de raças, de culturas, de línguas, de hábitos, de religiões com gente assim. Não existem guerras nem ódios com gente assim.
Hoje, 9 de Agosto de 2010, Don Manuel Carrasco faz 75 anos. PARABÉNS, Manuel, ENHORABUENA.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

187 - 1º RAID INTER-CONCELHOS.




Com partida e chegada na zona ribeirinha do Alvor, vai para a estrada no dia 12 de Setembro o 1º Raid Inter-Concelhos em Cicloturismo, numa organização do Centro de Ciclismo de Portimão.
Às 7 horas da manhã concentram-se os ciclistas, e uma hora depois dar-se-á início à partida para os 95 quilómetros, atravessando os concelhos de Portimão, Lagoa, Silves, Lagos e de novo Portimão.
Cada participante pagará 10 euros de inscrição, com direito a almoço no Centro Comunitário do Alvor.
O objectivo principal deste raid é proporcionar aos amantes do ciclismo uma experiência diferente daquilo que é usual, ou seja, um passeio em que o ritmo será mais elevado do que é costume. É claro que ninguém será posto de lado, se não desejar, ou não puder, seguir numa velocidade para a qual não esteja preparado. É um passeio para todos, mais fortes ou menos fortes, mas em que aqueles que se sintam melhor preparados possam dar "asas" aos seus pedais.
Informações mais detalhadas podem obtê-las através do mail centrociclismoportimao@gmail.com ou dos telefones 966007703 e 916487815.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

186 - REUNIÃO DA JUVENTUDE DESPORTIVA DAS FONTAÍNHAS.


Quarta-feira, dia 28 de Julho, pelas 21 horas, realizamos uma reunião da secção de cicloturismo da Juventude Desportiva das Fontaínhas.
Fundamentalmente tratar-se-á de falarmos sobre a organização do nosso passeio anual, que deverá realizar-se a 14 de Novembro. Mas é bem provável que possamos debater a actual situação da nossa secção, tão abalada que está, neste ano de crise.
Saúdo o regresso do João Espada, que se disponibilizou para voltar a organizar o nosso passeio, que eu sentia poder não voltar a ser viabilizado, dado o marasmo em que o cicloturismo da JDF caiu após o seu afastamento. Espero sinceramente que o João já tenha esquecido as agruras por que passou, e volte definitivamente à liderança da nossa secção, porque sentimos muito a sua falta. As coisas nunca mais foram as mesmas desde que ele saiu. Seria uma pena para o cicloturismo de Albufeira se o nosso clube deixar de funcionar.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

185 - ESTÁ UM MORTO NOS CONTENTORES DO LIXO DE LOULÉ E DE SILVES.

Como sou de Albufeira, cada dia que saio a treinar, tenho inevitavelmente que atravessar os concelhos vizinhos do meu, Loulé e Silves. Costumo escolher as estradas com tráfego mais reduzido do interior daqueles concelhos, para chegar a Monchique ou ao Barranco do Velho, por exemplo.

Assim que saio dos limites de Albufeira, e entro nos caminhos rurais, ou menos povoados, de Silves e Loulé, tenho a sensação que a morte e a putrefacção enchem o ar, que supostamente, naquelas paragens, deveria ser puro e agradável, de um odor terrível, vindo dos contentores do lixo ao sol, que provavelmente não são esvaziados todos os dias, nem submetidos a qualquer limpeza ou desinfecção.

Naturalmente que o mesmo não se passa nas grandes urbes, onde há um cuidado maior nesse sentido. Mas a verdade é que, no concelho onde habito, não se passam os mesmos problemas de Silves e Loulé. Em Albufeira, mesmo nos lugares mais retirados, os contentores são imaculadamente desinfectados. E assim deveria ser em qualquer lugar.
A ASAE, tão meticulosa com a defesa da saúde pública, quando se trata de restaurantes e estabelecimentos comerciais, nõ pode multar as autarquias?

No outro dia decidi-me por rolar até à freguesia de Moncarapacho, para subir o Cerro de São Miguel. É vergonhoso o que se passa com o lixo nas imediações daquele lugar. Contentores a abarrotar, a reciclagem ao abandono, porcaria em grandes quantidades espalhada à volta dos contentores. Numa freguesia onde passam milhares de estrangeiros a passear, ou que por ali habitam. Tudo limpinho na sede da freguesia, mas na estrada para São Brás de Alportel, ou para Santa Catarina da Fonte do Bispo é um nojo...
Quando tenho que deitar fora alguma garrafa de àgua vazia, e utilizar um contentor nesses sítios, parece-me que há um morto dentro dos contentores do lixo...Vêm-me à memória imagens e cheiros de Marrocos, que me deixaram sem vontade de voltar àquele país...

Ah, e já agora, a talho de foice, para não deixar passar a oportunidade: ao longo da estrada, costumo ver restos de barritas energéticas, garrafas vazias de Isostar, Gatorade, embalagens usadas de gel energético, obviamente coisas que foram deitadas para a berma da estrada por ciclistas a treinar. Então nós, que até temos um orgulho tão grande em usarmos um meio de transporte ecológico, que não poluímos o ar com as nossas bicicletas, deitamos lixo para o chão, quando a espaços regulares haverá sempre um contentor à nossa espera? Não custa nada transportar por dois minutos a garrafa vazia e deitá-la fora no lugar apropriado. Ou têm repulsa pelo morto que está dentro dos contentores de Loulé e de Silves...?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

184 - COM PELE DE GALINHA EM FUENTES DE ANDALUCÍA.




Três e meia da manhã. Toca o despertador para mais uma jornada de aventura por terras da Andaluzia. Se bem que me tivesse deitado já passando das onze, e tomado um comprimido para dormir, já estava acordado quando o despertador apitou. Talvez fosse da excitação, mas já estou habituado a estas andanças, não deve ter sido por isso. Penso que a causa está mais no facto de ser cozinheiro e de trabalhar aos sábados, portanto na véspera das corridas. O ter que trabalhar até tarde, o ter que me decidir se vou logo a seguir ao trabalho e dormir umas horas numas bombas de gasolina, ou se será melhor dormir umas horas em casa (à custa de um comprimido, claro, que em situações normais do dia-a-dia eu já tenho grandes dificuldades em adormecer), acordar bem cedo, fazer 3oo e tal quilómetros com sono, e chegar lá, montar-me na bicicleta e disputar uma corrida...
Mas pronto, lá fui. Ao chegar é sempre a mesma coisa, sou saudado efusivamente por quase toda a gente. Todos me conhecem, se bem que eu não os consiga conhecer a todos. Há uns que posso considerar bons amigos, afinal de contas até vieram já correr a Portugal, conhecemos-nos há anos, outros também os conheço mas não tenho com eles uma relação tão próxima, outros ainda parecem conhecer-me muito bem, cumprimentam-me amigavelmente, falam comigo, mas nem sei quem eles são, provavelmente já terei falado com eles alguma vez e não me recordo, por vezes acontece que sei quem são se estiverem vestidos de ciclista, mas se estão "à civil" não dá para os reconhecer. Principalmente o facto de terem ou não o capacete, faz uma grande diferença. Há também aqueles que me conhecem por este blogue, principalmente aqui em Portugal, me interpelam, e que eu nem imaginava que seguiam as minhas estórias.
Mal cheguei fui chamado para ser entrevistado. Não é a primeira vez que tenho que falar para uma câmara de televisão, mas há sempre um nervoso miudinho, que senti ao ver como o microfone me tremia na mão. Falar para uma câmara numa língua que não é a nossa..."e se perguntam qualquer coisa e eu não percebo?"...Bom, lá me desenrasquei, penso que até nem correu mal. Ficaram de ter um vídeo com o programa, da próxima vez que eu lá voltar.
A corrida foi anormalmente monótona. O ritmo foi sempre muito baixo, com excepção, claro, do troço de roda-livre, onde tive uma péssima prestação, o que aliás tem vindo a tornar-se um hábito, de há algum tempo para cá. Desta vez não havia táctica que desse certo, não era capaz de seguir na roda de ninguém, simplesmente não tinha força para aguentar os andamentos dos outros. Sei que eles treinam especificamente para cada corrida, fazem séries a subir "repechos" ou a escalar montanhas, treinam sprints e a cadência, e eu não posso, pela minha vida profissional, treinar como eles. Mas dantes isso não era um "handicap" para mim. Nunca fui dos melhores, bem pelo contrário, mas não tinha que lutar por não ser o último. Agora, talvez por não treinar como devia, não estou nunca em forma, em terreno plano até me desenrasco, mas assim que aparece uma subidinha é vê-los passarem-me sem qualquer dificuldade. E o problema é que me parece que tenho melhores prestações a treinar que na competição. Talvez por não saber dosear o meu esforço, e rebentar antes do tempo. Talvez por nunca ter sabido treinar convenientemente a cadência, e gastar energias desnecessárias com andamentos demasiado pesados. Não sei, mas o facto é que já não consigo ter as mesmas prestações, como há dois anos atrás.
Ao olhar para as classificações de outras corridas, é-me fácil verificar que antigamente podia bater rivais que hoje me deixam para trás. Será pelos quilos que ainda tenho a mais? Ou porque já não treino tanto como antes? Ou porque, com a criação do Circuito, eles andam todos a treinar muito mais que antigamente?
Uma vez mais, esta corrida de Fuentes de Andalucía efectuou-se debaixo de um calor infernal. Rezam as crónicas que no ano passado se correu com 43 graus. Este ano se não foi assim, foi lá perto...
Também uma vez mais corremos na auto-estrada. Depois de Joanesburgo, na Pick& Pay, este é o único lugar onde corri na auto-estrada (se não contar com a travessia da ponte na fronteira de Castro Marim, por ocasião do passeio do Campesino Clube).
Mas o que faz o título de hoje é uma outra estória. Uma estória de amizade que me fez ficar com pele de galinha. Ver uma sala inteira, numa pequena localidade do interior profundo de Espanha, toda a gente em pé a baterem palmas, palmas para mim, é algo que não seria nunca possível de descrever por palavras.
Quiseram os de Espartinas, em concluio com a organização, prestar-me uma homenagem pela minha constante participação nas suas corridas, e pela amizade que foi crescendo ao longo destes anos. E Don Manuel Carrasco, campeão da corrida, oferecer-me o troféu que ganhou com o seu suor. E fizeram-me subir ao palco, com toda a gente em pé a aplaudir, para uma das maiores demonstrações de amizade que alguma vez senti.
Outras vezes na minha vida os meus amigos me homenagearam. Os colegas de trabalho do hotel Riu, por exemplo. Ofereceram-me uma placa que guardo orgulhosamente entre os meus troféus dos concursos de cozinha. Ou a Juventude Desportiva das Fontaínhas, por tantas vezes exibir as suas cores nas corridas no estrangeiro. Mas há coisas que nos tocam fundo na alma. Como o estandarte oferecido pelo Núcleo Sportinguista de Portimão, só pela amizade. E esta grande manifestação de carinho de gente de outro país, que provam que a amizade e o companheirismo não têm fronteiras, que as fronteiras são só umas linhas imaginárias que não podem separar as pessoas, os corações , a solidariedade ou a amizade. A Don Manuel Carrasco, a Juan Leal, a Alejandro Barbosa, a Pepe Camino, a Cristina, a todos de Espartinas, mas também a Manuel Cascales de Lora, a Juan de Huelva, a Álvaro Prieto de El Rúbio, a Chiqui de Fuentes, e todos, de Sevilha, de Zafra, de Málaga, de Montehermoso, de Los Barrios, que me acolheram como se fora um deles, e sempre me trataram com o coração aberto, aqui deixo o meu sincero obrigado. E no mesmo dia que Espanha foi campeã mundial de futebol só lhes posso dizer:"enhorabuena". GRACIAS, ESPAÑA!!!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

183 - DE VITÓRIA EM VITÓRIA ATÉ À DERROTA FINAL.




São muito diferentes as corridas de ciclismo e aquelas de cicloturismo em que costumo participar em Espanha.
No cicloturismo, em que normalmente só uma pequena parte do percurso é que é efectuada em sistema de roda-livre, não há estratégias de equipas, é tudo ao molho e fé em Deus. No ciclismo, um sprinter não se interessa pelas etapas de montanha, nem um escalador se faz a um sprint.
No cicloturismo pretendemos sempre fazer o melhor possível, acabe a roda-livre numa recta ou numa subida. Se pudermos ficar no lugar 170 não queremos ficar no 171. Para os ciclistas profissionais ou elite, é-lhes igual em que lugar ficam, se não puderem disputar um dos lugares do pódio.
Acresce a estes factos, que num pelotão de cicloturistas que disputam um pequeno percurso de roda-livre, se misturam todas as categorias possíveis, desde júniores até aos master de 7o anos, pelo que, mesmo chegando entre os últimos, se pode estar a disputar o 1º lugar da nossa categoria etária, sendo que cada lugar na classificação é importante, e isto conduz a verdadeiras batalhas entre grupos menores.
No ciclismo profissional, se há uma fuga, o pelotão organiza-se para a anular, com as equipas interessadas na anulação da fuga a trabalharem nesse sentido. As equipas que não estão nessa luta optam por descansar, indo relaxadamente na roda das que trabalham, se tal lhes for possível.
No cicloturismo é cada um por si, a equipa não significa nada, pode mesmo acontecer que numa única equipa hajam candidatos a vencerem em categorias etárias diversas.
Veio-me à memória um episódio passado numa das primeiras vezes que ousei correr numa cicloturista espanhola.
Tinha ido à Etapa de la Vuelta ao Calar Alto, tinha aguentado, pensei que podia experimentar outra vez. Como a esposa e o filho estavam de férias, consegui organizar as coisa para irmos 3 dias, aproveitando para revisitar El Puerto de Santa María, que adoramos, e aí ficar num hotel, e participar na Ruta Cicloturista Los Alcornocales - Clásica Montera del Torero, na região de Algeciras.
A minha experiência era nula, mas a minha vontade era incomensurável.
Às tantas vi-me num grupo de 14 ou 15 corredores, e por falta de sabedoria, e sentindo-me forte, logo me coloquei à frente deles, aproveitando os outros naturalmente o meu esforço, seguindo na minha roda.
De repente salta um jovem, procurando distanciar-se. Nem pensar!! Julguei cá para mim...
Saltei atrás dele e só descansei quando ele abdicou da fuga.Vitória! Senti cá dentro!!!
E eis que salta outro!!! E eu a dar-lhe caça logo a seguir. Mais uma vitória!!!
E assim por vários quilómetros.
Ninguém tinha autorização para sair daquele mini-pelotão, que eu não deixava...
Sentia-me o herói do dia, o Lance Armstrong do Montechoro...felicíssimo com a tareia que lhes estava a dar...Cada passo era uma pequena vitória!!!
E de repente, assim como se eu nem existisse, foram-se todos embora, ignorando-me completamente...Mantendo o pedalar constante com que sempre vieram continuaram estrada fora, e eu, esgotado pelas investidas palermas, e pelo puxar constante, fiquei vazio, sem força sequer para seguir na roda deles...aprendendo uma lição para o resto da vida.
Dizia o Che Guevara:"de derrota em derrota até à vitória final". Para mim foi de "vitória em vitória até à derrota final", pelo menos contra aqueles que formaram aquele pequeno pelotão.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

182 - ENGÁNCHATE!!!



Por ter corrido no dia 20 em Almeirim tive de abdicar de ir a Zafra, cuja cicloturista decorria na mesma data.
Estive em Zafra há três anos, porque tinha na ideia que era só um saltinho até lá. Ideia que de alguma maneira se enraizou em mim, por ser ribatejano, e ser vulgar, na minha juventude, antes de ter saído da casa onde cresci, deslocarmos-nos àquela cidade para assistirmos a corridas de toiros. Só que de Coruche até lá é uma coisa, e de Albufeira são muitos mais quilómetros.
A "Marcha" de Zafra decorre por um cenário muito semelhante ao do Alentejo, por estradas planas, unindo várias aldeias ostentando cada uma delas um castelo medieval, chamando-se por isso "Ruta de los Castillos".

Para apimentar a corrida escolheram um troço algo montanhoso para se disputar a "roda-livre". Iniciava-se precisamente numa aldeia dominada por uma enorme falésia, que se alcandorava por trás. A ascensão pelas ruas empedradas da aldeia revelou-se dificílima para muitos. "Lo odeo", exclamava um companheiro de Cáceres ao meu lado, enquanto se esforçava, em pé, para não escorregar nas pedras lisas de anos de uso.
Estava em plena forma nessa altura. Sentia-me bem, apesar de montanhas não serem os meus terrenos. Subi facilmente, fui ultrapassando muita gente até ao topo, e chegando ao alto, estava mesmo entre os primeiros. Estava entusiasmadíssimo com a possibilidade de poder mesmo disputar um lugar com os melhores.
Só que, depois de passar o alto, ouço um estoiro na roda de trás, e a bicicleta começa a dançar...Um furo, raios, um furo, agora que estava a corrida a correr tão bem.
Saltei da bicicleta, saquei a roda, tirei o pneu, mudei a câmara de ar, voltei a colocar o pneu, esgatanhei as unhas até fazerem sangue, com a pressa e com os nervos. E os outros a passarem...
Não uso bomba de ar, por ser pouco prática. Em vez disso uso cápsulas de dióxido de carbono, que cabem no bolso. Mas o impensável aconteceu...! As cápsulas que tinha trazido não eram adequadas para o adaptador daquela bicicleta. Eram da outra bicicleta que uso só para me deslocar para o trabalho...
E ali estava eu, sem poder encher a câmara de ar, nem saber o que fazer. Ciclistas continuavam a chegar ao topo e a passar por mim. Será que havia um carro-vassoura? Será que tinham previsto um carro-oficina? Seria melhor telefonar à minha mulher? Ela tinha ido passar o dia com os miúdos ao Parque de Diversões de Badajoz. Tentei, mas no local não tinha rede...
E agora, que fazer? Voltar à aldeia que tínhamos passado, e ir à polícia? Pedir ajuda a alguém...?
Ciclistas continuavam a passar por mim. Tinham passado pelo menos 1o ou 15 minutos e ainda havia gente a subir a estrada da falésia...
Resignei-me, apesar do desespero. Já não havia nada a fazer, tinha que descer até à aldeia e arranjar uma solução.
Mas, chegado o ultimo corredor ao cimo da estrada, muito tempo após me ter acontecido o furo, atrás dele vinha a comitiva, carros de apoio das equipas, carros da organização, e, para minha grande satisfação, um carro equipado para reparações nas bicicletas. Lá de dentro saltou um mecânico com uma bomba na mão. Perguntou se eu já tinha mudado a câmara de ar, e tendo eu confirmado, rapidamente me encheu o pneu. Saltei para a bicicleta e fiz-me ao caminho como um possesso!
Longos minutos depois avistei ao longe o tipo que ia em último. Tinha uma camisola cor de laranja, nunca mais o esqueci. Passei facilmente por ele, contente por a partir de agora, não ser eu o ultimo.
Não haveria de ser o penúltimo também. Após uma curva surgiu outro, com o equipamento igual ao anterior. Eram fracotes, os daquela equipa...E lá adiante seguia um grupinho de três, que ultrapassei a toda a velocidade. E continuei a caçar neles, a malta que segue mais atrás são presa fácil...
Até que apanhei um grupo duns 20 ou 3o, barrigudos a maior parte, alguns com severos e antiquados bigodes. Quando encostei a eles diz-me um: "Has pinchado?" Confirmei que sim, que tinha furado, ao que ele respondeu: "Engánchate", significando que me iria ajudar, que iriam puxar por mim.
Agradeci e coloquei-me na sua roda. Mas depressa percebi que aquela não era a roda certa. Pedalavam penosamente, vagarosamente, tentando arrastar o excesso de peso pela estrada fora. Nem ele, nem nenhum dos que iam com ele me poderiam ajudar. Pelo que, passei para a frente do grupo, e pensei cá para mim:"engánchate tu!!!"
Saltei daquele grupo e segui sozinho por algum tempo. Fui apanhando outros pelo caminho, até que muitos quilómetros depois, consegui chegar ao pelotão. A adrenalina daqueles momentos e bom momento de forma que atravessava tinham levado a que conseguisse, apesar do infortúnio de ter furado, a chegar entre os primeiros.
Ao chegar à meta estava extenuado. Um vizinho do lugar onde a corrida terminou foi à sua casa buscar-me um grande copo de agua, que me soube a salvação.
São estas memórias que me entusiasmam a continuar a amar o ciclismo. Recordo-me muitas vezes destas coisas à noite, antes de adormecer. E durmo feliz então...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

181 - ROTA SOPA DA PEDRA EM ALMEIRIM. FÁCIL.DIFÍCIL.FÁCIL.


Senti-me benfiquista ontem!
Tive o privilégio de alinhar vestido com a camisola da Casa do Benfica de Vila Real de Santo António, no Passeio por Equipas de Almeirim.
Era a minha segunda participação neste evento fantástico, que reúne equipas de cicloturismo de Norte a Sul do país. Tantas, que tendo nós partido em 6º ou 7º lugar, e após completarmos os 71 quilómetros deste contra-relógio por equipas, quando chegámos ainda havia equipas a alinhar à partida. Como no ano passado tive a grata surpresa de encontrar na prova os companheiros do Sotavento, e depois de tantas pedaladas juntos pelas estradas do nosso Algarve, o mais natural seria partilhar equipa com eles, ao que eles prontamente acederam, tendo mesmo trazido uma camisola da equipa, para eu ser mais um deles. Um abraço do tamanho do Mundo para eles, que me acolheram com a maior amizade. Não tenho cor clubística, mas ontem senti-me benfiquista...
Depois de umas semanas seguidas sempre a competir, sentia-me bem fisicamente, bem melhor que no início do ano, quando tinha mais 14 quilos. Ainda não os consegui perder completamente, mas estou no bom caminho. Tinha estado no "Terras do Infante", no "Portimão-Fóia", em Espartinas, e agora era o tira-teimas.
Não sei como nem porquê, mas os meus companheiros de equipa deram-me a roda da frente, assim que largámos de Almeirim. Não gosto dessa situação, porque fico com a sensação de responsabilidade, de ter que puxar pelos outros, e eu não iria querer decepcioná-los. Sou muito inexperiente, não costumo correr com outros, e sabia que se gastasse muitas energias me iria ser fatal lá mais para a frente. Mas sabia que iria ter de trabalhar para a equipa, teria que calhar a todos, logo outro me iria substituir na frente. Pelo que, sem forçar muito, mas mantendo um passo certinho e vigoroso, lá fui conduzindo a equipa.
E a coisa estava a correr tão bem, que ainda dentro de Almeirim, apanhámos a equipa que tinha partido antes de nós. E até Alpiarça fomos consecutivamente ultrapassando mais três ou quatro. E nem sinal de alguém estar interessado em me revezar na frente da corrida...
Até que o Vargas saltou lá de trás para pôr ordem na corrida, mandando-me descansar, e fazendo avançar outro. E assim fomos pedalando uns quilómetros até sermos apanhados por duas equipas que vinham de trás, e que se colaram a nós, tendo daí advindo que o ritmo baixou consideravelmente, já que ninguém queria trabalhar para os outros, e a corrida morreu. Era como se tivéssemos subitamente passado de um contra~relógio para um vulgar passeio de cicloturismo. Em vez de mantermos um ritmo certo, passámos a ter que fazer uso dos travões, e a evitar a roda do que nos precedia. Desejei muito que saíssemos dali, e tentei incentivar os mais jovens da nossa equipa a trabalharem, para deixarmos os outros para trás. O que eles fizeram, mas se me revelou fatal. Na casa do Benfica correm dois putos mesmo bons, e quando eles pegaram na corrida esfrangalharam completamente o pelotão que se havia formado. No primeiro arranque deixaram mais de metade para trás, e com o decorrer da corrida só os melhores se mantiveram com eles. Compreendi que se alinhasse naquilo iria depois pagar bem caro. Até aí tinha sido fácil, muito fácil, mas agora estava a ficar no elástico. Preferi abdicar, podia ter feito um esforço para me manter com eles, mas mais cedo ou mais tarde não iria aguentar, e iria ficar vazio, pelo que era preferível esperar por uma equipa que viesse de trás, e que trouxesse um ritmo acessível.
Só que...a única equipa que apareceu, os do Cartaxo, ou traziam o Contador, o Basso e o Armstrong com eles, ou beberam gasolina ao pequeno-almoço...Não pedalavam, voavam!!! Com rodas lenticulares, atitude de profissional, até metiam medo...Encolhi-me e deixei-os passar, nem esbocei uma tentativa de ir com eles. Fiquei sozinho, era mesmo o que eu não desejava. Sabia que sozinho não ia a lado nenhum, é chover no molhado, ir-se-ia revelar difícil, muito difícil mesmo.
Lá à frente pedalava um que se via que podia ser útil. Tinha atitude.
Fui ultrapassando muitos que haviam ficado para trás, mas eram gente que não podiam ajudar, já iam rebentados. Aquele lá mais à frente é que me interessava.
E ele não percebia que devia esperar por mim...
Até que lá logrei chegar até ele. Segui uns minutos na sua roda. Depois passei para a frente, para ser eu a puxar. O que ele interpretou como um desafio...E arrancou a ver se me largava. Segui-lhe na roda, e quando deu sinais de fraqueza voltei a puxar, podíamos colaborar, teríamos mais hipóteses de chegar a um grupo mais avançado.
Mas ele nunca entendeu assim...Sempre achou que estava a disputar qualquer coisa comigo...
Bom, fosse como fosse, a verdade é que acabámos por fazer muitos quilómetros em companhia, se bem que extenuantes.
Até que finalmente surgiu atrás de nós uma equipa inteira, mais uns tantos pendurados.
Pendurei-me eu também.
O meu companheiro de infortúnio voltou a não entender as coisas...Pedalou por um quilómetro ou dois à frente dos outros, tentando não ser alcançado, o que naturalmente não seria possível. Por minha parte instalei-me confortavelmente no meio deste pequeno pelotão, e deixei-me conduzir até à meta. O meu companheiro rebentou e ficou para trás, voltando a pedalar sozinho...
Voltava a ser fácil. No meio do pelotão não se sofre, basta ir com eles.
Quando cheguei havia ainda equipas a partir. Tempo para uma agua e um duche, antes da sopa de pedra que nos iriam servir daí a pouco.
No ano que vem não vou faltar. É uma corrida com muitas emoções. Não se pode desperdiçar.